Recolha e análise da crítica e jornalismo sobre Artes Visuais na imprensa escrita em Portugal.

quarta-feira, maio 24, 2006

Final

“Na luta multiculturalista, o uso da palavra “cultura” é comparável ao uso por Foucault de “poder”. É um nome que se atribui a uma situação estratégicamente complexa numa sociedade particular”.
Gayatri Spivak. “A critique of Postcolonial Reason” Harvard University Press. 1999.


Concluindo um ano de Blogue, os acontecimentos individuais que são objecto de notícia artística ou comentário crítico deixaram agora, na fase do trabalho em que estamos, de ter importância.
Revendo os Clippings do último mês, que não foram objecto de reacção, temos a sensação de que já nada justifica comentário crítico da nossa parte, ou mesmo simples transcrição.
Vamos concentrar-nos no tratamento do material recolhido ao longo do último ano, no seu conjunto. Determinaremos as tendências gerais e passaremos a analisar os casos pontuais apenas como exemplos particulares, que as ilustram.


Ao longo deste ano o Blogue do Observatório da Critica de Arte emitiu “opiniões” inusitadas, que podem parecer descabidas e mesmo disparatadas no âmbito de um estudo que se quer científico. Algumas sem paralelo na sociedade portuguesa, como por exemplo o escândalo face à venda da colecção Chanpalimaud em Londres; os comentários emitidos quanto à falta de representatividade da delegação da Associação Internacional dos Críticos de Arte em Portugal; os comentários face às caricaturais negociações entre Berardo e o Governo (não tivemos tempo de acompanhar a abertura do Museu da Fundação Elipse); a denuncia do caso de uma crítica de arte que sistematicamente faz crítica em causa própria; o caso de uma das nossas jornalistas culturais num órgão de comunicação de referência que fez acompanhar o seu artigo de uma imagem em que o nome do artista está trocado; o crítico que desmascara o mundo artístico, mas deixa na obscuridade os vícios dos seus pares; a demonstração do arrogante expansionismo cultural de Madrid; o distanciamento e falta de entusiasmo em relação à equívoca e demagógica iniciativa da Fundação de Serralves denominada “O Poder e a Arte”; e tantos pequenos - grandes casos apenas cómicos ou conflituosos, que têm a ver com aquilo que na vida dos artistas visuais, tão discreta, passa para o conhecimento do público.


Sobre o caso que marcou e provávelmente continuará a marcar a agenda dos media durante os próximos anos, a instalação da Fundação Berardo no CCB, assinale-se que mantivemos desde o início do processo uma posição crítica face à arrogância negocial e exigências absurdas do Comendador, que à época não encontrou eco na imprensa.

Num volte face nitídamente português, característica da nossa crónica irresponsabilidade, após o acordo alcançado e o assunto resolvido, a imprensa começou a fazer eco de inúmeras opiniões de pessoas que afinal acham que não foi assim tão bom. Abstiveram-se no entanto de manifestar esta opinião antes do acordo, quando ela poderia influenciar ou interferir no desenlace do caso, não fosse poderem ficar ligadas ou tornar-se corresponsáveis por a uma eventual ruptura nas negociações.

Ainda hoje, quando estamos a coligir estas breves notas, lemos a entrevista de Paula Brito Medori e Hugo Xavier a Raquel Henriques da Silva, na Revista L+Arte, que não faz parte do nosso universo de publicações, onde a ilustre entrevistada tece várias prevenções e mesmo objecções ao teor da colecção B: “É possível fazer uma colecção tão boa ou melhor que aquela, se calhar por menos dinheiro”.

Talvez coincidência, esta entrevista tardia de RHS é publicada numa revista à qual está ligado Francisco Capelo, ex-sócio de Berardo, mas que poderá ser um dos principais prejudicados com a sua ocupação do CCB, visto que a sua Colecção de Design terá que fazer um recuo estratégico para Sta. Catarina. Mas haverá coincidências quando se trata dos media?




Para nós a objectividade não deve ser castradora dos sentimentos e emoções. O exercício de polémica que aqui desenvolvemos ao longo de um ano serviu antes de mais para nos motivar e obrigar a ler quase todas as notícias e textos (e alguns com que esforço...) e por outro lado produzir uma reacção imediata, que nos deixa mais livres para uma posterior reacção mediata.
Se cedessemos à tentação de fazermos nós próprios crítica de arte certamente teríamos uma posição ímpar e desalinhada no mercado do sector.




Não tivemos o prazer de poder contar com comentários assíduos de público afecto à actividade bloguista. Foi pena. Talvez o público dos blogues não coincida com o da arte... Talvez haja pouco público para as artes...Talvez...


Porque se tornam públicos aspectos da vida dos artistas? Porque estes querem que tal aconteça, porque na inevitável dança com o poder e o dinheiro precisam desta publicidade que não é paga directamente, ou porque os órgãos de informação necessitam de um pouco do tempero que só as artes podem dar?


No final deste ano de escrutínio ainda não muito atento, aguardando as conclusões do estudo que se seguirá, à maneira dos media, resolvemos estabelecer prémios relativamente aos nomes que mais se destacaram ao longo do ano que se iniciou em Abril de 2004 e terminou em Abril de 2005.

O crítico de arte que escreve melhor: Rocha de Sousa, no Jornal de Letras, Artes e Ideias. Completamente desfasado das realidades, mas literário!

A jornalista artística mais relevante: Vanessa Rato, no Público. Ambígua na opinião, mas noticiosa.

Poderia haver mais prémios, uns pela positiva ou pela negativa, mas vamos ficar por aqui. Para respeitar a simetria vertical do texto, como começámos com uma citação, terminaremos com outra:

“O historiador está na contingência de esquecer que os homens com quem trata passam uma grande parte do tempo a dormir, e que quando dormem, sonham.”
Peter Brown. Tradução de António Gonçalves Mattoso “O Fim do mundo clássico”. Editorial Verbo, Lisboa, 1972.