Recolha e análise da crítica e jornalismo sobre Artes Visuais na imprensa escrita em Portugal.

quinta-feira, março 09, 2006

Ser e não ser

“Centro Cultural de Belém, Exposições ‘de transição’ em 2006”.Vanessa Rato.
Público, 2006/01/25.

“Depois de apenas cerca de dois anos à frente do Centro de Exposições, Sardo demitiu-se em Outubro, dizendo não haver acolhimento do seu projecto pela administração do presidente João José Fraústo da Silva.
No cargo deste 1997, Fraústo foi entretanto exonerado pela Ministra da Cultura. Ficou ainda tempo suficiente no CCB para receber o substituto de Sardo, António Campos Rosado. Mas Rosado entrou em funções apenas no princípio do mês, pelo que foi Margarida Veiga, ela própria directora do Centro de Exposições (1996-2003) –saiu também demissionária alegando os mesmos motivos de Sardo- quem, entretanto, pegou na programação de exposições. António Mega Ferreira, o novo presidente da administração, entrou anteontem em funções.”


Comentário:
Vanessa Rato tem um especial talento para descrever em poucas palavras situações complicadas. Por outro lado falha inesperadamente em situações simples.
A frase em apreciação poderia servir de exemplo escolar para a conjugação do verbo ser, excepto nas suas partes que envolvem contradição. Fraústo foi e já não é, mas ainda foi receber Rosado. É o único caso em que ficamos sem saber o que ele é presentemente. Rosado não era e agora é [director do centro de exposições], mas não foi ele que escolheu o programa de exposições para 2006. Mega Ferreira é, mas só desde anteontem. Em relação a Margarida Veiga, tudo se complica: Foi e deixou de ser mas agora é [administradora], mas não é organizadora do programa de exposições; na realidade é [organizadora do programa de exposições de 2006], porque Rosado [que é], só entrou no princípio do mês. Com tudo isto a afirmação de Margarida Veiga de que o ano de 2006 é um ano “de transição” aparece como um “understatement”. Que elaborado equilíbrio entre todas estas pessoas...Quem realmente é tudo, mas não foi mencionado no texto de V.R., é José Berardo.
Na legenda da pintura de Jorge Martins que ilustra este texto, em que realmente se anuncia a sua exposição antológica, anuncia-se “uma exposição antológica de Jorge Pinheiro”. Jorge Pinheiro é referido na legenda mas não no texto. Jorge Martins é citado no texto mas não na legenda. É o direito à gralha. Verificam-se frequentemente gralhas nos nomes dos artistas, mas nunca trocas nos nomes dos detentores de cargos institucionais. Em emaranhados como estes poder-se-ia trocar os Antónios Mega Ferreira e Campos Rosado, que desde a Expo aparecem sempre juntos. Mas eles são escrupulosamente distinguidos. Qual o mal de pôr o nome de Jorge Pinheiro debaixo de uma tela de Jorge Martins? Basta desconsiderar cerca de cem anos de pintura...
Também no meio artístico, como no divã do psiquiatra, o lapso é revelador de uma situação.