Recolha e análise da crítica e jornalismo sobre Artes Visuais na imprensa escrita em Portugal.

Quinta-feira, Março 09, 2006

Berardo World

“Portugal (quase) ganhou a corrida para mostrar a colecção do bilionário – José Berardo está à beira de assinar um acordo para mostrar a sua arte em Lisboa”
The Art Newspaper, Nº166, Fevereiro de 2006

“[...] Os advogados do Sr. Berardo, que é Presidente da holding Metalgest, estão neste momento a redigir os termos do acordo que tem que estar finalizado por volta de 15 de Fevereiro. No entanto, se este negocio falhar, o Sr. Berardo disse a The Art Newspaper que ‘está ainda preparado para trabalhar com o governo francês’. [...] O Sr. Berardo disse a The Art Newspaper que o governo Português planeia a possibilidade de construir um novo museu em frente do CCB para albergar a sua colecção, que inauguraria em 2010. Avisou, no entanto, que não irá doar nem vender arte a Portugal porque tem uma “família grande”. Um representante do Ministério da Cultura declinou comentar.”


Este artigo significa que o Sr. Berardo está disposto a manter a pressão. Volta (ver inserções anteriores no OCA) a ameaçar com o governo francês e a lembrar que tem uma “família grande”. Novidade é o facto de serem os seus advogados a escrever o acordo. E a “ideia” do governo de construir o “Museu Berardo” em frente ao CCB?

Posteriormente o assunto evoluiu no sentido de não evoluir, com a marcação sucessiva de novas datas para um feliz desenlace. Entretanto “fez” duas primeiras páginas do Expresso. Berardo terá acções também na Impresa? Na sua arrogância negocial dizia, em suma, na primeira que tinha sido enganado pelo governo e na segunda (4.03) que estabelecia o ultimatum de 23 de Março. O Governo respondia que tudo ia pelo melhor e que as posições se tinham aproximado imenso. Entretanto consta, ou melhor, diz-se, que Joe adquiriu também Vieiras da Silva da colecção Jorge de Brito emprestadas à Fundação Vieira da Silva/Arpad Szenes, pelo que pode estar também a colocar no prato da balança o “esvaziar” desta Fundação. Na pequenez do nosso meio cultural, qualquer negociante se pode tornar um monopolista.

O caso da colecção de Jorge de Brito, na Fundação Arpad/Szenes Vieira da Silva é justamente um sintoma em como não se deve embandeirar em arco perante um coleccionador que quer “emprestar” a sua colecção ao Estado. . [“Angústia na Fundação”. Expresso 2006/02/18. “Várias obras ali depositadas por Jorge de Brito têm recebido ordem de saída e entrada. (...) Sommer Ribeiro [director da Fundação- parêntesis do OCA] admite que ‘duas obras não voltaram’ ]. Na realidade o Estado paga a elevada factura da manutenção, conservação, seguros de uma colecção e dá-lhe visibilidade “free of charge”, podendo a qualquer altura o mecenas ou a sua “família grande” mudar de intenções e “fechar” o museu. Ao fim e ao cabo funciona como um banco, sem cobrar as somas que os bancos cobram em todas as operações e por todos os serviços.

As hesitações e precauções que a Ministra da Cultura e mais recentemente o próprio José Sócrates têm manifestado acerca deste assunto, revelam o mais elementar bom senso.

Na apresentação do Plano de actividades do Instituto Português de Museus para 2006 o seu Director, Manuel Bairrão Oleiro referiu (DN, 2006/01/30) “não saber como se desenrolará a apresentação daquela colecção no Centro Cultural de Belém” mas, citado pelo jornal sem aspas, admitiu que o IPM poderá a ter uma palavra a dizer sobre o assunto. Não estará a antecipar-se ao acordo?
Será que tantos ziguezagues fazem parte de uma estratégia por parte do Governo ou resultarão de uma mera imperícia?

No caso de se constituir o museu Berardo, quantas vezes é que vamos ser obrigados a ouvir o Comendador repetir a história de quando casou e comprou o seu primeiro quadro e afinal o quadro era uma reprodução da Gioconda, porque o original estava no Louvre. Não é preciso ser o seu psiquiatra para compreender que foi esse o acto falhado que o levou à mesma rotina cerca de quatro mil vezes ao longo dos últimos anos. Só que, provavelmente devido a este trauma, o comendador não quer verdadeiramente que a negociação com o Governo chegue a bom porto. Porque aí teria que dizer acerca de cada uma das suas capturas: “O original está no Museu Berardo.”

A operação Berardo continua. Multiplicam-se entrevistas na TV e agora, na Visão (2006/02/09- “Quando as pessoas de negócios morrem é a cultura que sobrevive”). O empresário aplica à sua maneira a tradicional técnica da cenoura e do chicote. A cenoura é para o público, sobre a forma de “charme”, e o chicote para o governo. Nesta entrevista refere Duchamp (“conseguiu visualizar o futuro da arte”), Andy Warhol (“fez toda aquela fábrica”) e Yves Klein (“pintou com uma só cor”) e confessa que “gostava de ser pintor ou escultor”.