Recolha e análise da crítica e jornalismo sobre Artes Visuais na imprensa escrita em Portugal.

sexta-feira, março 17, 2006

EXCERTO DO RELATÓRIO DO OBSERVATÓRIO DA CRÍTICA DE ARTE PARA O ANO DE 2005

Data do Início da implementação do Projecto: Maio de 2005.

1.
O blog do Observatório da Crítica de Arte.


O blog do O.C.A. é o sub-produto de um projecto de investigação que tem como objectivo fundamental a colheita e tratamento estatístico e estudo dos artigos que foram escritos sobre arte na imprensa escrita durante o espaço de um ano.
Neste blog foram realizadas a partir de Abril 2005 e até ao início de Janeiro de 2006 oito entradas, sendo reproduzidos ou comentadas em cada uma cerca de trinta artigos considerados significativos: Junho, Julho, Agosto, Setembro, Outubro, Novembro, Dezembro, Janeiro de 2006.
O Observatório foi referido na periódico online do Instituto da Artes, em Agosto de 2005. Foi também citado por outros blog, como DOC LOG, em 21 de 2005.



2.
Projecto de Investigação.


Quantificações – Método


O Observatório da Crítica de Arte (OCA) iniciou a sua investigação de campo, recolhendo informação num conjunto seleccionado de órgãos da imprensa escrita.

Uma empresa da especialidade – a MediaMonitor -escolhe, diariamente, todos os artigos publicados na referida imprensa, sobre Arte Visuais, enviando-os por e-mail, denominado “clipping”, ao OCA, anexando os respectivos artigos em formato PDF.

A recolha teve início a 2005-04-29 e até 2006-01-27 reportaram trezentos “clipping” a que corresponderam 1778 artigos, uma média de 5,9 artigos por “clipping”.

O OCA arquiva de forma organizada todos esses artigos em PDF e procede à sua análise quantitativa e qualitativa, artigo a artigo.

A dimensão quantitativa, aquela que aqui se aborda, assenta no processamento dos dados identificados, numa grelha Excel cujos seis eixos principais são:

· Localização – identifica e através de hiperligação permite acesso imediato ao arquivo para consulta do artigo base;

· Identificação do artista – nomeia o artista referido no artigo e é o eixo principal no futuro tratamento dos dados;

· Informação sobre o artigo – caracteriza, incidindo no órgão de imprensa em que foi publicado, no seu autor e na dimensão que ocupa na página;

· Informação sobre o evento – caracteriza, incidindo na localidade em que este teve lugar, no espaço em que ocorreu ou, se for o caso, na editora que o publicou;

· Tipificação do artigo e do evento – explicita se o artigo é uma mera referência, se é descritivo, opinativo ou entrevista e se respeita a uma exposição, à obra/pessoa, a uma publicação, prémio, etc.;

· Observações – comporta informação ou comentário, pertinentes e/ou relevantes, mas não sistemáticos, que não estão incluídos em nenhum dos eixos atrás referidos.



O tratamento dos dados processados – base de dados – tem por objectivo central, caracterizar quantitativamente, para um determinado artista, o tratamento que lhe foi dispensado na imprensa escrita escolhida, ao longo dum determinado período de tempo.

Os objectivos específicos serão ajustados e tornados definitivos após um ano do início da recolha e processamento da informação, por se considerar o período de tempo e experimentação necessários para proceder a uma lógica de síntese acertada, que permita um diagnóstico consistente e conclusivo.

Os serviços de computação da Universidade já foram no entanto contactados, estando definida a estratégia e a operacionalidade da base de dados, que iniciará a sua fase experimental em Março de 2006, para que em Maio, cumprido o primeiro ano de recolha de informação, se possa iniciar de imediato e já de forma definitiva o diagnóstico da situação.

A base de dados, assenta no que se poderá retirar a nível de diagnóstico e conclusivo, da grelha sobre os artigos publicados num tempo determinado na imprensa escrita seleccionada, suportando a sua estratégia em quatro vectores:
1. Quanto ao Artista
Identifica-se o nº de vezes que este é referido no total da imprensa escrita seleccionada, também quantas vezes num determinado órgão de comunicação e por um determinado crítico, que tipo de artigos o citam, meras referências, descritivos, opinativos e entrevistas, que eventos tiveram lugar, exposições, publicações, prémios e em que sítios, localidade, galeria, etc.

2. Quanto ao Órgão de Comunicação
Verifica-se o nº total de artistas referidos no tempo escolhido e quantas vezes para cada um deles, que críticos escreveram e quantas vezes, sobre que artistas estes escreveram e quantas vezes sobre cada um deles e em que tipo de artigos.

3. Quanto ao Autor (Crítico)Caracteriza-se para cada crítico o nº de vezes que refere um artista, quantas vezes escreve sobre eventos em galerias/espaços determinados, que tipo de artigos publica, referências, descritivos, opinativos, entrevistas.

4. Quanto à GaleriaCompreende o nº de artistas e de vezes que os expõe, quantas vezes é referida, onde e por quem.



Operacionalmente, pode já referir-se que o tempo médio estimado de arquivo por artigo foi até à data de 1,1 minutos, correspondendo o trabalho efectuado a ~32:30 horas (1 955,8 minutos) e o de processamento foi de 8,6 minutos, correspondendo o tempo dispendido a ~255:00 horas (15 290,8 minutos) ou seja um total de ~287:30 horas. Não é ainda possível estabelecer o tempo médio para o tratamento de dados (base dados), pois ainda não se desenvolveu o processo de forma a poder apurá-lo consistentemente.

quinta-feira, março 09, 2006

Aica?

“Prémio AICA para Aires Mateus e Pedro Calapez”. Sobre a atribuição do Prémio da Associação Internacional de Críticos de Arte ao pintor Pedro Calapez e à dupla de arquitectos Aires Mateus. Joana Gorjão Henriques.
Público, 2006/02/22.


Comentário:

Esta notícia obteve um destaque mínimo na imprensa. Porque será que os críticos de arte, cuja única Associação conhecida é a AICA, dão pouco relevo à atribuição do seu próprio prémio? Ou será que não têm acesso aos media? Efectivamente, se compararmos a lista dos elementos deste júri e a dos autores dos artigos que referenciamos nesta página, não existem coincidências. Os membros da AICA são, na sua maioria, ex-colaboradores dos media que, sobretudo devido a notoriedade conseguida na imprensa, obtêm depois empregos mais estáveis ou melhor remunerados, conforme o padrão de comportamento tão claramente descrito no artigo do Art Newspaper (“Do Art Critics still have power?”, Nº 157, Abril de 2005), citado num primeiro Post deste Blog.

Como se fazia noutros países

“Ângelo de Sousa. A escultura que faltava conhecer.” Sobre exposição de Ângelo de Sousa no CAM. Vanessa Rato.
Público, 2006/02/16.

Sem comentário.


“Convidado a escrever para o catálogo - a lançar em Março, Sanches [Rui Sanches, escultor] diz que Ângelo de Sousa e Alberto Carneiro foram os dois artistas portugueses mais influentes na sua própria atitude perante a escultura. “Há o mito de que a ruptura na escultura portuguesa se deu com o Cutileiro. Acho que muito mais importante e anterior a isso foi [a ruptura] do Ângelo e do Alberto, muito mais sintonizada com o que se fazia noutros países”, explica o escultor.”

Jesus

“O permanente experimentalismo de E.M.Melo e Castro”. Sobre exposição de Melo e Castro na Fundação de Serralves. Óscar Faria.
Público, 2006/02/10.


Sem comentário.

“Comissariada pelo responsável da instituição, João Fernandes, a mostra pretende revalorizar um autor que, nos últimos anos, tem prosseguido o seu percurso nas margens do sistema artístico. Como revela Melo e Castro, certo dia o director do museu, num encontro, disse: “Quero ressuscitar-te; e eu ressuscitei, não tive outro remédio”.

Linha Clássica

“Paula Rego retrata Sampaio”.
Focus, 2006/02/01.

Sem comentário.

“As pessoas podiam estar à espera de algo fora de comum, mas o quadro segue uma linha clássica”, assegura [José Manuel dos Santos, assessor do então Presidente]”.

Significativo

“Portugal leva 15 Galerias à ARCO”. Marcos Cruz.
Diário de Notícias, 2006/01/25.

Comentário:
Madrid é aquela cidade onde, quando chegamos, nos apercebemos que não estamos em Londres, Paris ou Berlim. Tomamos assim consciência dos nossos constrangimentos geográficos, do facto de, agora que deixámos de ser um povo navegador e sermos um povo rodador, estarmos espartilhados e afunilados no final de uma Península Ibérica demasiado longa. Dentro destes condicionalismos, temos de reconhecer que, quando chegamos a Madrid, geralmente, nos divertimos.

A Feira Internacional de Arte Contemporânea de Madrid, vulgo ARCO, é o local onde a generalidade dos artistas portugueses, as galerias e o público, têm as suas incipientes experiências de internacionalização.

A filtragem da participação portuguesa nesta feira em 2006 alegra-nos, no sentido em que verificamos que não é só em Portugal que os circuitos se processam de forma eticamente obsoleta. Conforme este artigo refere, o proprietário da Galeria Pedro Oliveira, com o mesmo nome, integrou este ano o Comité Organizador da Feira. Nesse sentido terá sido ele próprio a seleccionar os seus pares que, conjuntamente com a Galeria Pedro Oliveira, participaram na ARCO e também, igualmente importante, a lista daquelas que, pretendendo participar, não o puderam fazer (lista que não foi divulgada).

Pode dizer-se, em defesa deste critério, que uma Feira deste género é organizada, em todas as actividades, pelos interesses económicos presentes no sector, filiados geralmente em associações, que portanto a escolha recairá num dos interessados. Por outro lado, Pedro Oliveira é já um veterano no sector. No entanto, não é necessariamente assim. As entidades económicas participantes, podem escolher instancias idóneas e equidistantes dos interesses em presença, uma espécie de júri arbitral, que façam se necessário uma selecção.

O galerista Pedro Oliveira foi assim obrigado, num acto de esquizofrenia (de chamar a uma empresa o seu próprio nome constitui já um prenúncio), a seleccionar para a ARCO a sua própria Galeria. Imaginemos que o Pedro Oliveira – Comissário considerava em consciência que a Galeria Pedro Oliveira não tinha condições para ser seleccionada, os problemas individuais de cisão que essa de-cisão não deixaria de lhe trazer.
Por outro lado a Galeria Pedro Oliveira e a cidade do Porto foram seleccionadas para a secção Cityscapes, pelo comissário Miguel Von Haffe Pérez. Terá sido também o Comité organizador do qual fazia parte Pedro Oliveira a escolher o comissário Pérez?

É uma situação desnecessária, de que o galerista não precisa e a directora da feira, Rosina Cruz, de saída, deveria evitar. As declarações desta última, referidas neste artigo dão aliás ideia da tradicional ignorância, insensibilidade e paternalismo dos responsável espanhóis, em relação aos assuntos portugueses.

Ela diz com benevolência e simpatia que num total de 270 galerias, as portuguesas são cerca de metade da Alemanha e dos EUA, o que “é significativo”, tanto mais que “a ARCO não faz favores a ninguém”. Era dispensável o elogio.
É “significativo” de quê? Significa que Madrid fica mais perto de Lisboa e do Porto do que Berlim e Nova Iorque, e de que a ARCO é mais importante para os portugueses do que para os americanos ou alemães? Parece ser mais um motivo para a directora ficar preocupada quanto à internacionalização da feira... Na realidade estavam lá, mesmo sem qualquer tipo de favor o triplo de galerias espanholas do que de qualquer dos dois outros países citados como termo de comparação. Estiveram mais galerias portuguesas do que italianas ou do Reino Unido. Significativo?

Continuação do comentário e do ARCO:

A continuação do ARCO foi auspiciosa. Dizem-no os títulos dos artigos de imprensa: “Portugal muito satisfeito com o Arco” (Jornal de Notícias, 2006/02/11), “Arco já não prescinde das galerias portuguesas” (JN, 2006/02/12), “Museu Rainha Sofia compra uma Vieira da Silva mas quer mais” (Público, 2006/02/11), “Euforias Ibéricas”, (Alexandre Pomar, Expresso 2006/02/18 - o Expresso também viajou este ano a convite da TourEspanha).

As vaidades portuguesas passeiam-se também. No primeiro artigo citado, “a passear sozinho, Jorge Coelho do PS. ‘Venho todos os anos. É quase religioso.’ Ricardo Salgado no artigo do público declara “não vim de compras”. No entanto foi apanhado pelo JN “numa galeria do Reino Unido a escolher obras para a sua colecção pessoal.” O Museu Rainha Sofia comprou generosamente a artistas portugueses, incluindo a obra Terre de Sienne de Maria Helena Vieira da Silva (primeira obra da artista na colecção do Museu), adquirida numa galeria de Madrid.

Ser e não ser

“Centro Cultural de Belém, Exposições ‘de transição’ em 2006”.Vanessa Rato.
Público, 2006/01/25.

“Depois de apenas cerca de dois anos à frente do Centro de Exposições, Sardo demitiu-se em Outubro, dizendo não haver acolhimento do seu projecto pela administração do presidente João José Fraústo da Silva.
No cargo deste 1997, Fraústo foi entretanto exonerado pela Ministra da Cultura. Ficou ainda tempo suficiente no CCB para receber o substituto de Sardo, António Campos Rosado. Mas Rosado entrou em funções apenas no princípio do mês, pelo que foi Margarida Veiga, ela própria directora do Centro de Exposições (1996-2003) –saiu também demissionária alegando os mesmos motivos de Sardo- quem, entretanto, pegou na programação de exposições. António Mega Ferreira, o novo presidente da administração, entrou anteontem em funções.”


Comentário:
Vanessa Rato tem um especial talento para descrever em poucas palavras situações complicadas. Por outro lado falha inesperadamente em situações simples.
A frase em apreciação poderia servir de exemplo escolar para a conjugação do verbo ser, excepto nas suas partes que envolvem contradição. Fraústo foi e já não é, mas ainda foi receber Rosado. É o único caso em que ficamos sem saber o que ele é presentemente. Rosado não era e agora é [director do centro de exposições], mas não foi ele que escolheu o programa de exposições para 2006. Mega Ferreira é, mas só desde anteontem. Em relação a Margarida Veiga, tudo se complica: Foi e deixou de ser mas agora é [administradora], mas não é organizadora do programa de exposições; na realidade é [organizadora do programa de exposições de 2006], porque Rosado [que é], só entrou no princípio do mês. Com tudo isto a afirmação de Margarida Veiga de que o ano de 2006 é um ano “de transição” aparece como um “understatement”. Que elaborado equilíbrio entre todas estas pessoas...Quem realmente é tudo, mas não foi mencionado no texto de V.R., é José Berardo.
Na legenda da pintura de Jorge Martins que ilustra este texto, em que realmente se anuncia a sua exposição antológica, anuncia-se “uma exposição antológica de Jorge Pinheiro”. Jorge Pinheiro é referido na legenda mas não no texto. Jorge Martins é citado no texto mas não na legenda. É o direito à gralha. Verificam-se frequentemente gralhas nos nomes dos artistas, mas nunca trocas nos nomes dos detentores de cargos institucionais. Em emaranhados como estes poder-se-ia trocar os Antónios Mega Ferreira e Campos Rosado, que desde a Expo aparecem sempre juntos. Mas eles são escrupulosamente distinguidos. Qual o mal de pôr o nome de Jorge Pinheiro debaixo de uma tela de Jorge Martins? Basta desconsiderar cerca de cem anos de pintura...
Também no meio artístico, como no divã do psiquiatra, o lapso é revelador de uma situação.

Vitória

“Oferenda”. Sobre a exposição de Helena Almeida no CAM da F. Calouste Gulbenkian.
Expresso, 2006/01/28.

Sem Comentário.

“Nos últimos dois anos, os admiradores da obra de Helena de Almeida não tiveram muito de que se queixar. Uma exposição antológica no CCB, a presença vencedora no Prémio BES Photo de 2004, o Prémio AICA-MC e a representação oficial na Bienal de Veneza – que se reapresenta agora no CAM, fazem dela um caso de consagração sem grandes competidores. Este excesso de oferta expositiva pode não abonar muito em favor da imaginação das nossas instituições, mas nada retira ao facto de Helena de Almeida ser um dos artistas fundamentais da arte portuguesa da segunda metade do século XX, cujo trabalho foi visto em Veneza por cerca de 24 mil visitantes.”

Há males que vêm por bem

“Chegaram as Caixas”. Sobre exposição “O olhar fauve” no Museu do Chiado e a de Frida Kahlo no CCB. Uma “caixa” de Alexandre Pomar.
Expresso, 2006/01/20.

“Estas iniciativas de escala modesta, com notória qualidade histórica e capazes de atrair grandes públicos, não interessariam aos gostos críticos de directores mais interessados em passear as suas supostas carreiras pelas grandes capitais. Só surgem em Lisboa porque se interromperam os créditos para um jogo fátuo que tem tido menos a ver com programas públicos de cultura do que com planos privados de comissários, artistas, galerias e coleccionadores- investidores, com que aqueles se foram confundindo por falta de escrutínio político.

As pequenas mostras vindas das periferias espanholas e francesa, ou a procurar noutros circuitos também facilmente acessíveis, têm o mérito de estabelecer um contexto cultural mais participado e integrado, que não vive apenas das franjas do “star-system” artístico –um contexto menos provinciano, portanto. Sobre ele será possível construir outros projectos de maior ambição.”


Pergunta:
Quererá A.P. dizer que com os Directores de Museu que temos, o melhor será cortar-lhes o dinheiro?




“Experimentar a imagem”. Sobre o Prémio BES Photo. Ana Ruivo.
Expresso, 2006/01/28.

“Depois de um perturbado arranque marcado em parte pela crítica à disparidade de escolhas que enfrentavam trabalhos e percursos de artistas de gerações muito distintas ( e levou Paulo Nozolino e João Maria Gusmão/Pedro Almeida Paiva a recusarem participação), afinaram-se critérios, e a iniciativa saiu reforçada, mais coerente, e sob afirmadas intenções de futuro por parte das entidades promotoras”.


Nota do OCA: José Luís Neto ganhou.

Uma aula de Mestrado em Artes Visuais intermedia na Universidade de Évora

Professor Filipe Rocha da Silva, 03.03.2006

Foi pedido a cada um dos alunos presentes, sem aviso prévio, que escolhesse um recorte de imprensa sobre arte e o comentassem. Os alunos tiveram cerca de quarenta e cinco minutos para escreverem os comentários. Os comentários foram editados pelo professor. O resultado foi o seguinte:


1. Critica a exposição na Galeria Arte Periférica. Solly Cissé. Celso Martins.
Expresso, 2006/01/20.


“O imaginário africano está certo sentido dramático [sic], mas exibe uma frescura e rudeza urbana e contemporânea (com pontos de contacto com o grafiti ocidental) que nada tem a ver com as imagens de uma África primitiva que exerceram longo fascínio no ocidente mas que já não correspondem à sua realidade dominante”.


Comentário: A arte africana evoluiu, cresceu e o que chega até nós hoje em dia é algo mais do que as imagens primitivas africanas que tanto nos interessaram no passado.
A.M.C.



2. “Segunda Volta”, Sobre a edição do Prémio BES Photo deste ano. Sílvio Souto Cunha.
Visão, 2006/01/19.


“No ano passado (na edição que elegeu Helena Almeida como vencedora), eclodiu a polémica, devido à presença de responsáveis do CCB no júri. Este ano, Paulo Nozolino agitou as águas, ao declinar ser escolhido, alegando que a sua presença provocaria uma falsa competição.”


Comentário:
O problema talvez resida noutro tipo de questão, a das relações entre artistas, curadores e críticos de arte. Mesmo com um júri heterogéneo e isento, geraram-se tendências de oposição, grupos e talvez pior, consensos, que se confundem com meias medidas. E que tal se criassem um júri para determinar a isenção dos júris dos prémios artísticos? Talvez não houvesse gente suficiente...
S.A.

Nota do OCA: Ver hoje excerto de artigo de Ana Ruivo sobre o mesmo assunto.



3. “Densidades, intensidades e subtilezas”. Sobre a exposição "Densidade Relativa", no CAM da Fundação Calouste Gulbenkian. Nuno Crespo.
Público, 2006/01/21.

“O desajuste que aqui se verifica entre a nossa percepção e o objecto real é visto pelo artista como prolongamento do desajuste entre o sono- com os seus sonhos e imagens não filtrados pela consciência- e o quotidiano.”


Comentário:
De que se constitui a matéria que se situa na passagem entre a intenção de encontrar um cruzamento de dois mundos?
Instauração da ilusão pela inversão das leis da matéria – criação de estabilidade inverosímil?
M.H.G.



4. “Intus, de Helena Almeida, agora em Lisboa”. Sobre exposição na Fundação Calouste Gulbenkian. Vanessa Rato.
Público, 2006/01/20.

Comentário:

Nenhum título para a presença de Helena Almeida seria mais irónico do que “Eu estou aqui”. Não foi imediata ou precoce mas tardia a consagração efectiva da artista no panorama de arte português. No entanto não tenho dúvidas de que a obra de H.A. não supera uma certa “repetição” que tive oportunidade de notar na grande retrospectiva que o CCB lhe dedicou. Em nome da “divina coerência”, premissa nuclear da sedimentação autoral do discurso de arte, Almeida teve a mesma postura, a mesma abordagem, discursou sobre o mesmo tema, fez uso do mesmo médium ao longo de mais de 30 anos! Legitimada pela critica de arte que associou o seu trabalho às questões da falibilidade/ambiguidade da representação, do real e do virtual, do apresentado/representado, das potencialidades da imagem – estou-me a lembrar da forma como estas questões foram abordadas com mais densidade e profundidade por Noronha da Costa, seu contemporâneo – a artistas revela-se como um dos génios ingénuos da História da Arte.

F.J.

Nota do OCA- Ver sobre o mesmo assunto o excerto de artigo de Celso Martins hoje citado.



5.“A arte feita de dor. O maior ícone da pintura mexicana vai estar presente entre nós. As obras da artista que lutou anos contra a dor estão patentes no CCB de 14 de Fevereiro a 14 de Maio”.
Focus, 2006/01/18.

Comentário:
O artigo “A arte feita dor” da revista Focus, aproveita a exposição de Frida Kahlo no CCB para apresentar uma breve biografia da artista.
Em nada se refere a esta exposição, que estaria patente no CCB de 14 (embora na realidade tenha sido adiada por uma semana a sua inauguração) de Fevereiro a 14 de Maio.
O leitor que vir as fotos do trabalho de Frida que são publicadas na revista, ou os que conheçam bem a sua obra, irão certamente sofrer uma desilusão ao chegarem ao CCB.
Da exposição original, que pretendia ser uma retrospectiva da obra da artista, só chegaram a Lisboa uma parte das telas. Quase é preciso andar à procura delas. O enorme espaço reservado à exposição foi preenchido com fotografias a preto e branco da sua vida bem como textos impressos nas paredes. Na zona central existe ainda uma representação da Festa dos Mortos. É esta a tão anunciada exposição, uma das mais importantes da programação do CCB em 2006? É para este o tipo de eventos que se pretende atrair o grande público? Ou será que estão a chamar burras às muitas pessoas que têm acorrido à exposição ? [Nota do OCA: Público, 2006/02/27. “Enchente para ver exposição de Frida Kahlo no Centro Cultural de Belém”.]

A.M.



6.“Exposições simultâneas. – Um percurso através de algumas mostras inauguradas recentemente no Porto na Galeria Graça Brandão, Galeria Plumba e Galeria Pedro Oliveira”. Óscar Faria.
Público, 2006/01/21.

Comentário:
Aos Sábados fico em casa.
As inaugurações em massa desenvolveram o micro universo artístico elitista, legitimador do que é a arte, o artista, o “artístico”, o amigo do “artístico”...
O delírio colectivo arrasta-se de capela em capela, de copo em copo, atrás do político que por sua vez legitima a importância do acontecimento “artístico”, todos atrás do “next best thing”. Com tanta comoção, não consigo ver nada. Por isso aos Sábados fico em casa.

A.L.

Terminou a aula.

Berardo World

“Portugal (quase) ganhou a corrida para mostrar a colecção do bilionário – José Berardo está à beira de assinar um acordo para mostrar a sua arte em Lisboa”
The Art Newspaper, Nº166, Fevereiro de 2006

“[...] Os advogados do Sr. Berardo, que é Presidente da holding Metalgest, estão neste momento a redigir os termos do acordo que tem que estar finalizado por volta de 15 de Fevereiro. No entanto, se este negocio falhar, o Sr. Berardo disse a The Art Newspaper que ‘está ainda preparado para trabalhar com o governo francês’. [...] O Sr. Berardo disse a The Art Newspaper que o governo Português planeia a possibilidade de construir um novo museu em frente do CCB para albergar a sua colecção, que inauguraria em 2010. Avisou, no entanto, que não irá doar nem vender arte a Portugal porque tem uma “família grande”. Um representante do Ministério da Cultura declinou comentar.”


Este artigo significa que o Sr. Berardo está disposto a manter a pressão. Volta (ver inserções anteriores no OCA) a ameaçar com o governo francês e a lembrar que tem uma “família grande”. Novidade é o facto de serem os seus advogados a escrever o acordo. E a “ideia” do governo de construir o “Museu Berardo” em frente ao CCB?

Posteriormente o assunto evoluiu no sentido de não evoluir, com a marcação sucessiva de novas datas para um feliz desenlace. Entretanto “fez” duas primeiras páginas do Expresso. Berardo terá acções também na Impresa? Na sua arrogância negocial dizia, em suma, na primeira que tinha sido enganado pelo governo e na segunda (4.03) que estabelecia o ultimatum de 23 de Março. O Governo respondia que tudo ia pelo melhor e que as posições se tinham aproximado imenso. Entretanto consta, ou melhor, diz-se, que Joe adquiriu também Vieiras da Silva da colecção Jorge de Brito emprestadas à Fundação Vieira da Silva/Arpad Szenes, pelo que pode estar também a colocar no prato da balança o “esvaziar” desta Fundação. Na pequenez do nosso meio cultural, qualquer negociante se pode tornar um monopolista.

O caso da colecção de Jorge de Brito, na Fundação Arpad/Szenes Vieira da Silva é justamente um sintoma em como não se deve embandeirar em arco perante um coleccionador que quer “emprestar” a sua colecção ao Estado. . [“Angústia na Fundação”. Expresso 2006/02/18. “Várias obras ali depositadas por Jorge de Brito têm recebido ordem de saída e entrada. (...) Sommer Ribeiro [director da Fundação- parêntesis do OCA] admite que ‘duas obras não voltaram’ ]. Na realidade o Estado paga a elevada factura da manutenção, conservação, seguros de uma colecção e dá-lhe visibilidade “free of charge”, podendo a qualquer altura o mecenas ou a sua “família grande” mudar de intenções e “fechar” o museu. Ao fim e ao cabo funciona como um banco, sem cobrar as somas que os bancos cobram em todas as operações e por todos os serviços.

As hesitações e precauções que a Ministra da Cultura e mais recentemente o próprio José Sócrates têm manifestado acerca deste assunto, revelam o mais elementar bom senso.

Na apresentação do Plano de actividades do Instituto Português de Museus para 2006 o seu Director, Manuel Bairrão Oleiro referiu (DN, 2006/01/30) “não saber como se desenrolará a apresentação daquela colecção no Centro Cultural de Belém” mas, citado pelo jornal sem aspas, admitiu que o IPM poderá a ter uma palavra a dizer sobre o assunto. Não estará a antecipar-se ao acordo?
Será que tantos ziguezagues fazem parte de uma estratégia por parte do Governo ou resultarão de uma mera imperícia?

No caso de se constituir o museu Berardo, quantas vezes é que vamos ser obrigados a ouvir o Comendador repetir a história de quando casou e comprou o seu primeiro quadro e afinal o quadro era uma reprodução da Gioconda, porque o original estava no Louvre. Não é preciso ser o seu psiquiatra para compreender que foi esse o acto falhado que o levou à mesma rotina cerca de quatro mil vezes ao longo dos últimos anos. Só que, provavelmente devido a este trauma, o comendador não quer verdadeiramente que a negociação com o Governo chegue a bom porto. Porque aí teria que dizer acerca de cada uma das suas capturas: “O original está no Museu Berardo.”

A operação Berardo continua. Multiplicam-se entrevistas na TV e agora, na Visão (2006/02/09- “Quando as pessoas de negócios morrem é a cultura que sobrevive”). O empresário aplica à sua maneira a tradicional técnica da cenoura e do chicote. A cenoura é para o público, sobre a forma de “charme”, e o chicote para o governo. Nesta entrevista refere Duchamp (“conseguiu visualizar o futuro da arte”), Andy Warhol (“fez toda aquela fábrica”) e Yves Klein (“pintou com uma só cor”) e confessa que “gostava de ser pintor ou escultor”.