Recolha e análise da crítica e jornalismo sobre Artes Visuais na imprensa escrita em Portugal.

quinta-feira, novembro 17, 2005

Opressão

"Vídeo e escultura lado a lado em Serralves". Sobre projecto denominado "Fora!", incluindo obras de Rui Chafes e Pedro Costa. Miguel Cerqueira da Silva.
Público. 2005/10/21.

"Pedro Costa confessou ter sentido "medo" de apresentar o seu trabalho em Serralves, 'já que em comparação com as outras artes, num museu, o cinema fica sempre por baixo'. Sentiu também um certo 'incómodo' por estar em Serralves, porque a instituição museológica está associada a uma classe que 'ajuda a opressão', embora considerasse positivo o facto de a sua obra poder chegar ali a 'muito mais gente'".


Pergunta: Chegar a "muito mais gente" não será exactamente oprimir?


"Estamos a tentar dar a melhor prenda possível às pessoas que a saibam receber." Entrevista de Óscar Faria a Pedro Costa e Rui Chafes.
A entrevista pode ser lida na íntegra na edição on-line do Público.
Público, Mil -Folhas. 2005/10/22.


Mil Folhas- [...] Sendo cada um proveniente de uma área diferente, a escultura e o cinema, até que ponto é compatível fazer uma exposição a dois?

Rui Chafes- [...] O meu ponto de partida é tentar chegar a algum ponto, não sabemos qual, partindo do princípio da impossibilidade, da incompatibilidade. Com essa consciência, a gente há-de chegar a algum ponto, não no sentido da ilusão que seja possível, mas sim da certeza que é impossível. [...] A ideia foi uma proposta concreta do João Fernandes [ director do Museu de Arte Contemporânea de Serralves], que depois ficou cheio de medo do resultado.
[...] Atrás da escultura há uma cidade inteira, com prédios, ruas, árvores, casas, túneis de metro... A escultura é apenas uma pequena hipótese; não acredito em objectos, não é um resultado final, é apenas um modo de pensamento.

Pedro Costa- " Há coisas que valem, há valor nas coisas. Por exemplo, num filme há que saber o que é que aquilo vale, é a primeira pergunta. O que é que vale um filme? 'Viste o último não sei quê?' 'Iá, iá'. A crítica do PÚBLICO resume-se um bocado ao 'iá', depois não há um valor nas coisas, parece que somos uns velhadas.

Mil Folhas - [...] Até que ponto, seja no jornalismo, seja no cinema, seja na arte, temos o direito de falar pelo outro...

P.C.- Tu estás a puxar...tu vais-te queimar, isso era preciso ser escrito, tu vais-te queimar...

M.F. Queimo-me...
[...]

P.C. -Já falei muito disto com os críticos, esses decepcionaram-me mesmo. [...] É porque há uns cabrões numas fábricas...há gajos super ricos que são da treta, que são uns brutos do carago...é preciso dizer essas merdas e os críticos não fazem o seu trabalho. O crítico é uma palavra bonita, um gajo que pensa e ajuda a pensar e faz um texto ainda mais bonito que a mais bonita escultura do Rui. É preciso arriscar um bocadinho. [...]
As pessoas não sabem do que é que gostam. Há muitas pessoas que gostam seja do que for. As pessoas não sabem, as pessoas levam com o que o Rangel lá põe, ou punha, o dono da outra lá põe. Talvez o mundo da arte escape um bocadinho, não sei. Acho que quase tudo participa do mesmo logro. O papel do artista, embora não goste da palavra, é outro. Sempre foi, sempre será, não há maneira de evitar a questão. "