Recolha e análise da crítica e jornalismo sobre Artes Visuais na imprensa escrita em Portugal.

terça-feira, julho 19, 2005

Promiscuidade 2*

“O papel, qual papel?” Pedro Dias de Almeida. Sobre a galeria João Esteves de Oliveira.
Visão, 2005/07/07.

Sem comentários.

“João, hoje com 58 anos, gosta de demarcar bem a sua colecção pessoal do seu (novo) ofício de galerista- ‘evitar promiscuidades’como diz. Mas, ao mesmo tempo, uma das suas máximas é vender apenas coisas que poderia ter em minha casa”.


* Promiscuidade 1 foi um texto introduzido, Sexta feira, 8 de Julho de 2005 [ver na memória].

A fotografia

A terra onde vives. João Mário Grilo ( crónica da série “Imagens”).
Visão. 2005/07/07.

Comentário.

”Questiono-me agora, olhando a sublime raridade destas imagens [de Paulo Nozolino] – a cicatriz do pai velho, os olhos fechados da criança morta em Sarajevo, o gabinete do kapo de Auschwitz, os cadáveres amortalhados de Coimbra, o prédio esventrado de Beirute ...- se a fotografia não é mesmo a única – e extrema- possibilidade que temos para restaurar a (outra) aura da própria modernidade, para libertar o tempo do instante, para entender que o mundo não fala pelos jornais ou pela televisão, que nos servem todos os dias – e cada vez mais a todas as horas- uma —“ilusão de conversa”.

Quando se refere à “conversa” dos jornais JMG refere-se provavelmente às grandes tiragens e primeiras páginas que nos entram pelos olhos dentro e não conversas como as dele, que temos de procurar numa recôndita página 117 da “Visão” e que apresenta a realidade fotográfica como alternativa ao ilusionismo mediático.
De qualquer maneira não deixa de ser surpreendente que a agenda geográfica das fotografias de Nozolino, que é esboçada nesta breve citação, talvez com excepção de Coimbra, é também um espécie de agenda jornalística para o século XX: Sarajevo, Auschwitz, Beirute... Parece assim que a própria fotografia de Nozolino não deixa de ser mediáticamente motivada, o que não a desvaloriza de modo algum, mas desmente uma visão romântica sobre o carácter absoluto da sua independência.

Retrato Vivo

Lourdes Castro, linha e sombra. Rocha de Sousa.
Jornal de Letras Artes & Ideias. 2005/07/06.

Sem comentários.

“Sou dos que tiveram o privilégio de assistir, na abertura da exposição do grupo KWY em Lisboa, na Sociedade Nacional de Belas Artes, ao debate que se estabeleceu entre aqueles artistas, vindos de um exílio luminoso, e os artistas de cá, um público ao mesmo tempo dividido e fascinado. Esse estado de espírito, de resto, envolvia muitos olhares cruzados sobre a imagem de Lourdes de Castro, bela e um pouco lassa, com as pernas cruzadas, um largo e florido chapéu na cabeça, autoconfiança, palavras frescas e breves, sorrisos leves – nenhum contorno ou sombra em analogia com as suas peças, antes o retrato vivo de uma sensibilidade perdurável, entretanto cosmopolita. Estava-se em 1960.”

Champalimaud na Christie’s

Venda da colecção de Champalimaud. Anónimo.
Jornal de Notícias, 2005/07/05.

Pedro Girão, Vice-Presidente da Christie’s:
“Há muitos portugueses interessados em comprar peças da colecção, que já confirmaram presença no leilão desta semana ou, pelo menos, já anunciaram que irão licitar através do telefone. Outros até já fizeram ofertas muito competitivas.”

Público, 2005/07/07. Anónimo.

“Algumas da peças mais importantes regressaram a Portugal pela mão da própria família Champalimaud. Estiveram dezenas de portugueses na sala, entre eles a presidente da Fundação Champalimaud (principal beneficiária com a venda da colecção), Leonor Beleza e duas netas de Champalimaud, que arrebataram, entre outras peças, um Par de Mouros Reais (sec. XVII- XVIII), por 1,2 milhões de euros ( base de licitação de 886 mil euros). Foi a nona peça a atingir um valor mais alto.”


Comentário:
Ou melhor, pergunta: No Universo Global em que o bilionário se movimentava, onde estava a colecção antes de ir para a Christie’s? As autoridades portuguesas, o IA, autorizaram a saída de Portugal de peças que, como o Canaletto “Bucintoro no Molo no Dia da Ascenção”, são das mais valiosas entre as que existem, inclusivamente nos museus, em Portugal?
O Estado português fez aquisições? Como foi defendido o interesse da arte e da cultura nacionais em todo este processo?
Estamos muito gratos ao Sr. Champalimaud pela Fundação e o seu contributo para a saúde dos portugueses. Mas não há saúde à custa da arte...


L+Arte. 14 de Julho de 2005. Anísio Franco.

“Deveria o estado português ter classificado algumas dessas peças? Porquê? Desde quando elas estão em Portugal? Que importância tiveram ou poderiam ter para o desenvolvimento cultural e artístico do país? Nenhuma. São, sem dúvida, belas obras de arte, algumas das quais bem gostaríamos de ter em nossas casas. Mas, sinceramente, um Canaletto faz mais sentido nas paredes da National Gallery, pois Canaletto pintou em Inglaterra, do que em qualquer um dos nossos Museus. Daí ser muito bem escolhida a casa que, já no próximo dia sete de Julho, vai liquidar esta colecção: a Christie’s, na King’s Street em Londres. Se houver algum interessado em Portugal não custa nada. É só fazer uma oferta para Londres. Algumas dessas peças são bons investimentos, representam dinheiro bem investido. Esperemos, pela nossa saúde, que as obras de arte rendam bom dinheiro. Como todos sabemos, o dinheiro não tem pátria por isso deixem-no circular.”


Expresso, 9 de Julho de 2005. 1ª página. Notícia anónima. “Vale e Azevedo no leilão de Champalimaud”.

“João Vale e Azevedo acompanhou o leilão da colecção Champalimaud, em Londres. Foi visto de palete na mão, pronto a licitar, mas não comprou nada porque “aquilo não era para as bolsas nacionais ” [a bold no original], disse ao EXPRESSO a mulher, Filipa.”

Jornalismo Cultural

Introdução e fragmentos de transcrições de debates sobre jornalismo cultural organizadas na University of California/Berkeley Graduate School of Journalism, promovidas pelo National Arts Journalism Program, da Columbia University.

Introdução da publicação:
“Enquanto as artes na América florescem em quantidade record e infinita variedade, o território do jornalismo artístico tem sofrido uma dolorosa atrofia ao longo dos últimos anos. Os postos culturais têm sido atingidos tão severamente como qualquer outra secção jornalística ao longo do recente período de emagrecimento dos media.”


Painel a 10 de Maio de 2002

Jim Warren, editor no Chicago Tribune.

“A verdade é que demasiados repórteres e editores [culturais] estão à beira da ignorância total no que diz respeito à economia, abstendo-se do mais vago entendimento do facto de estarem a reportar sobre uma indústria monstruosa, plena de energúmenos e gangsters.”

Kit Rachilis, editor principal no Los Angeles Magazine.

“Penso que a qualidade da crítica [artística] é consideravelmente superior àquela que existia há vinte e cinco ou trinta anos. Se íamos a uma redacção a situação que se nos deparava era qualquer pessoa poder ser crítico de arte. Portanto, era uma espécie de lixeira para bêbados e incompetentes. Era o gulag do mundo jornalístico. Na hierarquia dos jornais, situava-se perto das páginas femininas. Os repórteres de investigação de política estavam no topo, os repórteres desportivos a seguir e a escrita cultural era, na maior parte, a base da hierarquia. Se querias subir num jornal, a cultura era o sítio a evitar. [...]
[...] Quando [ o repórter da Newsweek e alumnus do NAJP] John Horn publicou a história de que a Sony estava a inventar falsas citações de pessoas que fingiam adorar os seus filmes, isto correspondia ao sonho dos estúdios de cinema – o falso crítico era exactamente o que eles precisavam. Já não precisavam de nenhum de nós. O que queriam era construir o seu próprio crítico e pô-lo a dizer o que queriam. [...]
[...] Vivemos uma cultura jornalística e mediática que está inteiramente ocupada com o que “está in ou está out”, “ está up ou está down”, uma cultura para quem o diálogo não é um factor importante."


Doug Mc Lennan, chefe de redacção de ArtsJournal.com.

“Passei um ano na China e durante algum tempo fui editor no China Daily, que nós chamávamos o jornal das “boas notícias”. Se ocorria um tremor de terra ou uma revolta, nunca se falava disso. Mas, seis meses mais tarde, referia-se a solução do problema social ou a forma como os edifícios eram reparados depois do terramoto. Noutras palavras, não era possível dizer que algo era mau ou estava por resolver: tinha que se anunciar que algo tinha tido solução. E frequentemente, é o que o jornalismo cultural parece fazer.”



Steve Proctor, editor The Baltimore Sun

“Todos os jornais que eu conheço estão desesperados para aumentar o número de leitores mulheres e jovens. Penso que se pode argumentar que uma maior cobertura artística é a forma de conseguir isto. Todos os estudos que conheço mostram que a decisão em todos os lares acerca de onde ir e o que fazer cabe às mulheres. Se fornecermos uma melhor cobertura artística existe uma forte possibilidade de atrair mais leitoras. [...]
[…] Deve-se investir muito mais energia na escrita sobre arte, por exemplo, alargando o seu âmbito a toda a paisagem cultural. [...] No Sun, eu gosto de levar a reportagem a partir da crítica até à origem, focalizando nas ideias. Não me quero cingir ao evento mas sim à ideia da pessoa que está a organizar o evento. [...] ”

BESArte

Bes Arte -Colecção Banco Espírito Santo. Especial (Suplemento pago).
O Público. 2005/07/02.

(Pag. 7). Vasco Araújo na Bienal de Veneza.

“The Girl of the Golden West, nome do vídeo apresentado, “baseia-se na história da ópera de Giacomo Puccini, La fanciula del West, que consiste num triângulo amoroso entre uma rapariga, um xerife e um bandido Mexicano/Americano’ – diz o artista. E acrescenta: ‘Estes dois estão apaixonados pela rapariga demonstrando essa paixão de formas diferentes que resultam em abusos humano/sociais e verdades diferentes num local onde tudo era extremamente instável, pois a cena passa-se na Califórnia durante a tomada dos americanos do território aos mexicanos. Desta maneira eu propus a uma mulher comum, negra, residente nos Estados Unidos da América e nomeadamente no Estado do Texas, para fazer uma observação desta ópera e filme e comentá-la segundo o ponto de vista dos direitos humanos, do que estava certo ou errado dentro das regras da sociedade, quem seria o herói para alguém que sofrera a carga social da sua diferença.”

Idem, Pag. 8:

“A colecção BESArte- Colecção Banco Espírito Santo possui trabalhos de duas séries de fotografias de Helena Almeida: Tela habitada (1976) e Eu estou Aqui (2005).”

Estafadissima

“Matar o tempo”. Luisa Soares de Oliveira sobre Vídeos de Maria Lusitano.
Público, 2005/07/03.

Sem comentários.

“E é justamente o tempo, mais do que a emancipação da mulher ou a estafadissima reflexão do papel dos meios de comunicação na formação da consciência, que importa aqui realçar.”

Espectador sofre

“A artista voraz e o espectador audicioso”. Nuno Crespo.
Sobre exposição de Ana Jotta na Fundação de Serralves no Porto.
Público. 2005/07/02.

Comentário.

“As exigências colocadas ao espectador são grandes e erguem-se como uma espécie de impedimento ou mesmo uma cerca que rodeia – suave ou arduamente conforme o caso – cada uma das suas peças. E as tais exigências transformam-se numa única: a imprescindível audácia do visitante.”

Nota do OCA: Este artigo foi publicado na véspera do fim da exposição. Ele funciona portanto como uma espécie de consagração e não como um apelo ou complemento de uma visita, independentemente da audácia do hipotético visitante.

Milhões

Museu de Serralves mostra Rauschenberg. Francisco Mangas.
Diário de Notícias. 2005/07/01.

“Desde a abertura, o Museu de Arte Contemporânea de Serralves já foi visitado por um milhão de pessoas. Nos próximos quatro anos, segundo as previsões de Gomes de Pinho, são esperados ‘1,5 milhões de visitantes’ (...) O sucesso, referiu, deve-se ao modelo de gestão assumido pela instiuição, que tem permitido ‘bom entendimento’ entre o Estado, autarquia e fundadores privados.”


Comentário:
        1. O número de visitante, neste e noutros Museus é apontado como um título de nobreza, ou uma tiragem de jornal para apresentar perante um cliente publicitário, e não tem como consequência directa a sustentabilidade económica da instituição. A chave do sucesso, como diz o CEO, reside nos apoios.
        2. O milhão de visitantes não se traduz numa vantagem para a criação artística nacional. Esta continua pelas ruas da amargura.

Aventuras de um Marroquino em Portugal.

“Vingança estética”. Nuno C. Cunha.
Sobre exposição do artista Mahi Binebine, organizada pelo Museu de Arqueologia de Silves.
Correio da Manhã, 2005/06/26. PAG. 48.

Sem comentário.

“Sobre o êxito da sua carreira, o pintor e escritor considera que, ‘como sempre, há uma grande dose de sorte ou azar.’ Durante os seis anos que viveu nos Estados Unidos – três em Nova Iorque e outros três em East Hampton- conheceu ‘uma mecenas que gostou do trabalho e defendeu-o o junto dos que fazem a chuva e o bom tempo no universo muito fechado da arte’. Resultado : ‘De um dia para o outro encontrei-me a caminhar lado a lado com os maiores.’



“ Exposição em Stand- by”. Nuno C. Cunha.
Correio da Manhã, 2005/06/26. pag. 52


Entrevista a Conceição Amaral, directora do Museu de Arqueologia de Silves, acerca da exposição do artista contemporâneo Mahi Binebine, organizada pelo seu Museu, num local ainda por definir:
“Um Museu de Arqueologia necessita cada vez mais de actividades deste género, porque é considerado um museu de cacos, o que acarreta a grande dificuldade de “pôr a falar’ objectos desse género’- disse. “Há uma constextualização que é a de trazer essas peças para hoje, como é que podem ser vistas, interpretadas e revalorizadas.”


Comentário: O drama dos directores de Museu antigos que recorrem à arte contemporânea no sentido de aumentar o número de visitantes e dar uma suposta visibilidade a colecções de natureza profundamente diferente.
Conceitos muito em voga de “animação” e “turismo cultural” que podem nada ter a ver com as funções dos Museus como organismos de conservação e visualização de testemunhos que.são indispensáveis à investigação científica e artística. A todos estes directores se recomenda a leitura do texto de 1968 “Sould da museum be active?” de E.H. Gombrich, incluído em Reflections on the history of art, da editora Phaidon.
Não seriam necessárias certamente as obras de Mahi para “pôr a falar” os “cacos” do Museu Arqueológico de Silves, se existisse uma divulgação adequada da razão de existir daquela colecção e um interface eficaz em relação à educação.

Pintores de Domingo

“Aspectos da cultura portuguesa”. Anónimo.
Sobre exposição de Sofia Guedes na Galeria Fernando Pessoa do Centro Nacional de Cultura, integrada no ciclo “Pintores de Domingo”.
Jornal de Notícias. 2005/06/23.

Comentário.

Considerando que a expressão “pintores de domingo” é considerada depreciativa, mesmo quando em Portugal haverá poucos pintores que não tenham outras formas de sustento para além da pintura, saúde-se a coragem do Centro ao intitular o seu ciclo “Pintores de Domingo”.

O truque

“João Vieira, fado português”.
Rocha de Sousa. Jornal de Letras, Artes & Ideias, 2005/06/22.

Sem comentários.

“À boa maneira do fado português, nas tertúlias da ‘baixa’, havia quem se ocupasse, pela negativa, com o crescente êxito de Vieira, acusando-o de jogador de meros efeitos técnicos, de uma repetição letrista como pose e estereótipo. Nunca soube quem terá soprado, talvez de Paris, horizonte de exílios bem sucedidos, essa condenação laminar do truque, um efeito a combater em nome da superioridade formal da pintura, algo inventado na mesma faixa crítica quanto à arte ilustrativa.”

domingo, julho 10, 2005

Ironias da história

Monumentos e antimonumentos. Expresso. 2005/06/18. José Luis Porfírio.

Comentário.

"Dentro das subtilezas iconográficas que, por vezes, se misturam com as ironias da história não posso deixar de mencionar o Afonso Henriques, que é, muito deliberadamente, uma versão de outro monumento (Soares dos Reis, 1886), muito aproveitado em tempo do Estado Novo na ilustração dos livros de leitura e nas capas dos cadernos escolares, o qual foi também objecto de um bilhete postal, menos conhecido actualmente, onde o rosto de Salazar substitui o do nosso primeiro rei. Esse postal tinha uma inequívoca inscrição: 'António de Oliveira Salazar, salvador da Pátria'. Agora, ao verificar no catálogo que há uma réplica da escultura nos jardins da residência oficial do primeiro-ministro, que largíssimos anos conhecemos como 'os jardins de Salazar', encontro neste facto uma saborosa ironia na nossa história artístico-política. (...) excelente ensaio de Joaquim de Oliveira Caetano, comissário da exposição, reflectindo sobre o conjunto da obra monumental de Cutileiro: evolução, tipologias, possível censura em certos casos (o que é sempre gratificante para um artista moderno ou contemporâneo) e, terminando com particular pertinência, com uma interrogação sobre o papel, a função e a possibilidade do monumento na 'arte actual e na sociedade de hoje'. Essa dúvida é, por certo, a razão pela qual os monumentos de João Cutileiro são, sempre, no todo ou em parte, antimonumentos."

Um complexo gauchiste faz com que não se queira olhar para os monumentos actuais, que continuam a emanar da mesma forma do poder político-social, sem pensar que existe qualquer torção que os distingue dos anteriores. Daí a importância dessa patine de uma "possível censura", "uma interrogação sobre o papel de...", a que J.L.Porfírio se refere. Quando, no fundo os antimonumentos, de João Cutileiro são afinal apenas monumentos.

Impressionismo

"Pequena pérola num retrato revela amor secreto de Rafael." Público,
2005/06/17. Clara Ferreira- Marques.

Sem comentários.

Maurizio Bernardelli Cruz, editor do jornal Stile, citado pela autora: " Pode parecer-nos artifical mas (...), pelo menos até ao século XVIII, o lado alegórico da pintura era extremamente importante. Foi o impressionismo que toldou a nossa capacidade de ler um quadro como se fosse um livro."

Pintura Contemporânea

"Oscar Baenza-Contrastes". Visão - Porto. 2005/06/13. Helena Osório. Acerca da exposição na Galeria Pedro Serrenho no Porto.

Sem comentários.

"Penso que quem faz pintura tem de assumir um compromisso político, porque quem faz pintura está completamente desenquadrado do que se entende por arte contemporânea. Eu até diria que a pintura não tem nada a ver com a arte contemporânea".
[O pintor, ouvido neste artigo].

René Bertholo

"René Bertholo, O pintor das máquinas complicadas, 1935-2005", Público,
2005/06/14, depoimentos, que acompanham artigo de Luisa Soares de Oliveira.
"René Bertholo, Quando o criador resolve falar de si sem usar palavras",Diário de Notícias, 2005/06/15. Ana Marques Gastão.

Sem comentários.

"Sinto pessoalmente uma grande perda e acho que Portugal devia estar de luto (Público, 2005/06/14)." Jorge Martins (Pintor).

"Tentámos promovê-lo porque em Portugal estava um pouco esquecido. Tivemos quatro ou cinco exposições no país e no estrangeiro, mas foi sempre uma pessoa muito afastada do meio social." Fernando Santos (Galerista).

"Resolvi começar a falar de mim próprio sem palavras e no fundo a minha pintura é isso"- citação do pintor no DN, ( 2005/15/06).

sexta-feira, julho 08, 2005

Embrulhar

"Comboio também será embrulhado". L.F.S. 01/07/2005. Público (Local).

Sem comentários.

"Quatro carruagens de comboio da Linha de Sintra vão ser 'embrulhadas' pelo artista plástico Leonel Moura no âmbito do projecto Sintra Floresce, à semelhança das telas coloridas com que foram revestidos edifícios do centro histórico que vão ser alvo de recuperação. [...] 'Isto não serve para esconder mas para mostrar que a Câmara vai intervir aqui', notou, quinta-feira o artista plástico, considerando que 'a arte contemporânea pode ajudar na reabilitação dos centros históricos'. [...] Para já, a Câmara pagou a Leonel Moura 12 mil euros pelos 'embrulhos' de três edifícios, mais 810 euros por assistência técnica durante seis meses. Meia centena de pendões - alguns já voaram com o vento- custaram 3 mil euros, estimando-se que para 'embrulhar' o comboio se gaste mais 25 mil euros."

Desprezo nacional.

"Génio ou mito? Benoliel continua a ser um fotógrafo desconhecido?"
Alexandre Pomar. 2005/06/04. Expresso.

Sem comentários.

"Se fica documentada a actividade do correspondente internacional, com originais cheios de anotações, retoques e marcas editoriais ('L'Illustration), também se ilustra o desprezo nacional pelo património fotográfico. Benoliel é uma das vítimas dessa fatalidade, apesar de ter gozado em vida, e depois dela, dum imenso prestígio."

Artistas e Comissários

Entrevista a José Maçãs de Carvalho intitulada "Imagens de casa". Jornal
de Letras, Artes & Ideias
, 2005/06/08. Maria Leonor Nunes.

Comentado.


"Imagens privadas interroga as relações entre a arte e o universo das colecções, dos coleccionadores e das encomendas? Ou é a própria relação contemporânea entre a Arte, o espaço público e privado que está em causa? Em primeiro lugar, quis diluir a figura de autoridade do comissário. Primeiro porque também sou artista e interessa-me mais o meu trabalho como tal, e depois porque me pareceu interessante perceber como é que cada artista responde a outros artistas (na escolha das imagens). Portanto, cada autor foi artista foi, também, comissário porque decidiu a sua fotografia para cada espaço. Eu fui muito invisível, geri o tempo e escolhi o autor seguinte, a quem enviava as imagens anteriores."


Poderemos pensar que através de uma intervenção utópica na qual cada artista seja comissário (independentemente de tal acontecer ou não neste caso) está-se a subverter o comissariado, que contrapõe a figura de autoridade à multidão dos artistas que são o seu território.
Podemos no entanto também julgar que através desta simulação inofensiva se está a prestar vassalagem à instituição, diluindo no papel do comissário a própria função artística, transformando os artistas em petits comissaires.
Problemas públicos levantados não tanto por estas Imagens privadas mas sobretudo pela entrevista concedida por José Maçãs de Carvalho.

Promiscuidade

Entrevista a José Afonso Furtado intitulada "Respiração na paisagem". M.L.M. JLA&I. 2005/06/08.

Sem comentários.

"Vai editar um livro com estas imagens, numa edição de autor. Porquê?

As razões para isso são várias, mas julgo que no essencial passam pelo facto de o modelo (e portanto o entendimento) da fotografia dominante no mercado, resultado da conjugação objectiva, por vezes próxima da promiscuidade, de críticos que também são comissários, membros de júris de premiação, conservadores, programadores e consultores de mecenas ou de coleccionadores privados ou institucionais, remeterem para a margem do mercado o tipo de trabalho que, conceda-se ao menos a coerência (a qualidade, essa, será sempre discutível), venho realizando há mais de vinte anos."

Compatibilização de Interesses

Pequena Nota de rodapé intitulada "Encontro de passagem" sob extenso artigo "Maria Beatriz, naturezas mortas". Ambos de Rocha de Sousa. JLA&I, 2005/06/08.

Sem comentários.


"Sem anunciar uma carreira embora a tenham, assaz incisiva nos casos ligados às artes, às escritas e ao testemunho, os quatro pintores, agora em visita na zona do Chiado, lugar que sempre consagraram nos próprios cruzamentos culturais e profissionais, esboçam um aceno, mostram alguns exemplos de arte que desenvolveram e procuram (presume-se) estar de bem, em pleno convívio com a cidade, na relação por vezes omissa das suas passagens pelos noticiários da vida urbana. Mesmo agora, por razões éticas, porque entre eles se encontra quem escreve estas linhas, continuam apenas como notícia de rodapé. Notícia que nada tem de publicitária nem avalia o lugar de amanhã, incluindo a bibliografia e outros factos curriculares de cada autor. Decidiram então apresentar estas poucas linhas ao Director do Jornal, no jeito (brando) de um direito que lhes assiste enquanto artistas e enquanto cidadãos."

Conflito de interesses

"Domingos Pinho, real maravilhoso". Maria João Fernandes. JLA&I.
2005/06/08. Sobre exposição na Galeria Corrente d'Arte, de Lisboa.

Comentado.

Sendo facto conhecido que a articulista colabora com a Galeria que organiza a exposição é lícita a pergunta: Ao escrever o texto estará ela a agir como membro do jornal ou representante da galeria?

A Selecção Nacional

Visão, 2005/06/09, "Selecção nacional; A 51ª Bienal de Artes de Veneza tem a maior representação portuguesa de sempre". Sílvia Souto Cunha.

Diário de Noticias, 2005/6/10, "A maior representação portuguesa na Bienal de Veneza", artigo de Manuela Paixão.

O Público, 2005-06-02, artigo de Inês Nadais.

Diário de Notícias, 2005/06/11. João Pombeiro.

O Público. Oscar Faria.


Comentados.



Uma representação portuguesa "ao nível da representação anterior quanto ao número de participantes" e sofrendo mais uma vez devido a uma localização excêntrica, foi o balanço pouco entusiasta de Oscar Faria no Público de 2005/06/12.

Ficamos a saber também, (Visão. 2005/ 06/09) que pelo contrário e felizmente a 51ª Bienal de Veneza tem a maior representação portuguesa de sempre e que tem um orçamento inferior às anteriores presenças, Cabrita Reis, Jorge Molder, João Penalva, Julião Sarmento. Para além disso tem um apoio de 50 mil euros do Ministério da Economia "interessado na implantação da 'marca Portugal'."

Perplexos perante os contornos da "marca", fomos esclarecidos depois pela intervenção do Primeiro- Ministro José Sócrates quando se deslocou à Bienal no sentido de inaugurar o Pavilhão Português, (DN. 2005/6/10), acompanhado para além da Ministra da Cultura por Manuel Pinho, Ministro da Economia coleccionador da artista - uma outra ligação à Economia):
"Assinalar o esforço e o empenhamento do Governo Português na internacionalização da arte portuguesa, bem como o seu contributo para a construção e promoção da imagem de Portugal. Não podemos separar as duas, é muito importante para a nossa economia".
Aproveitou para fazer também crítica de arte: "a mostra ilustra a 'modernidade que esteve sempre presente em toda a sua [de Helena Almeida] obra ao longo das últimas décadas".

Um extenso texto de João Pombeiro (DN. 2005/06/11) sobre a artista e que começa pela conferência de Imprensa que anunciou o evento é elucidativo da atmosfera polémica em que decorreu a participação dos 50 mil euros num total dos 381 mil euros que custou a iniciativa. As perguntas dos jornalistas choviam sobre o Secretário de Estado do Turismo sobre a razão deste apoio e ele, segundo este relato, não explicou muito bem ("estratégia", "parceria", “conjugação de esforços", "turismo cultural"). Mais tarde: "simpática a artista saiu depois dos políticos, sem responder a nenhuma pergunta"- entende-se- porque não foram feitas.

Com o facto de se tratar de um problema económico concordarão certamente as doze estruturas de teatro do Norte que, de acordo com o Público, de 2005-07-02, decidiram não receber (forma de luta estranha...) o subsídio de 10 mil euros que lhes tinha sido atribuído pela Ministra da Cultura e pediram a demissão do Presidente do Instituto das Artes, Paulo Cunha e Silva, por "afirmar publicamente ter desviado verbas destinadas aos apoios sustentado ao Teatro para a representação portuguesa na Bienal de Veneza".

Conclusão:
50 mil euros não bastaram para o Ministério da Economia exportar os seus conceitos de marketing para a Cultura.
Tentemos conciliar as imagens de Helena Almeida, com a aposição das letras:
"M.a.r.c.a P.o.r.t.u.g.a.l". Difícil mas não impossível...

Observatório da Crítica de Arte - Quantificações - Método

O Observatório da Crítica de Arte (OCA) iniciou a sua investigação de campo,
recolhendo informação num conjunto seleccionado de órgãos da imprensa
escrita.

Uma empresa da especialidade escolhe, diariamente, todos os artigos publicados na referida imprensa, sobre Arte Visuais, enviando-os por e-mail ao OCA em formato PDF.

O OCA arquiva de forma organizada esses artigos (estimativa de cerca 220 artigos por mês) e procede à sua análise quantitativa e qualitativa, artigo a artigo.

A dimensão quantitativa, aquela que aqui se aborda, assenta no processamento dos dados identificados, numa grelha Excel cujos seis eixos principais são:

? Localização - identifica e através de hiperligação permite acesso imediato ao arquivo para consulta do artigo base;
? Identificação do artista - nomeia o artista referido no artigo e é o eixo principal no futuro tratamento dos dados;
? Informação sobre o artigo - caracteriza, incidindo no órgão de imprensa em que foi publicado, no seu autor e na dimensão que ocupa na página;
? Informação sobre o evento - caracteriza, incidindo na localidade em que este teve lugar, no espaço em que ocorreu ou, se for o caso, na editora que o publicou;
? Tipificação do artigo e do evento - explicita se o artigo é uma mera referência, se é descritivo, opinativo ou entrevista e se respeita a uma exposição, à obra/pessoa, a uma publicação, prémio, etc.;
? Observações - comporta informação ou comentário, pertinentes e/ou relevantes, mas não sistemáticos, que não estão incluídos em nenhum dos eixos atrás referidos.

O tratamento dos dados processados tem por objectivo, caracterizar quantitativamente, para um determinado artista ou instituição, o tratamento que lhe foi dispensado na imprensa escrita escolhida, ao longo dum determinado período de tempo. A análise pode ser também invertida, estudando-se as características de determinado orgão de informação ou mesmo articulista individualmente considerado.

Os objectivos específicos serão ajustados e tornados definitivos entre o terceiro e sexto meses após o início da recolha e processamento da informação, por se considerar o período de tempo e experimentação necessários para proceder a uma lógica de síntese acertada que permita um diagnóstico consistente e conclusivo.